Capturar um caranguejo é a parte fácil. O difícil é acessar o que existe dentro de uma carapaça feita justamente para impedir isso. Para esse problema, o polvo tem um conjunto de ferramentas em que cada peça resolve uma etapa.
O bico
No centro da coroa de braços fica a boca, e nela duas mandíbulas de quitina endurecida articuladas como um bico de papagaio invertido — a peça inferior é a maior e passa por fora da superior.
É a única estrutura rígida do corpo inteiro, e essa singularidade tem consequências práticas. Como não há osso, cartilagem ou concha, o tamanho do bico define o menor buraco pelo qual o animal consegue passar. Um polvo de vários quilos atravessa uma fresta de poucos centímetros porque o bico é o único gargalo.
Um material com gradiente
O bico é um caso muito estudado em ciência de materiais. A ponta é extremamente dura e rígida; a base é mole e flexível, para se encaixar no tecido muscular sem rasgá-lo. A transição entre os dois extremos é gradual e contínua, produzida por variação na hidratação e na proporção de proteína ligada à quitina.
Esse gradiente resolve um problema clássico de engenharia: unir material duro a material mole sem criar um ponto de concentração de tensão. Não há junta, e portanto não há onde quebrar. O princípio inspira pesquisas em próteses e em interfaces entre componentes de rigidez diferente.
Como o bico resiste à digestão, ele se acumula no estômago de predadores como cachalotes e albatrozes. Cada espécie de cefalópode tem um formato característico, e existem chaves de identificação baseadas apenas nessa peça. Boa parte do que se sabe sobre a dieta de baleias e sobre a distribuição de lulas de mar profundo vem de bicos coletados em estômagos.
A rádula
Logo atrás do bico está a rádula, uma fita flexível coberta por fileiras de dentículos de quitina, presente em quase todos os moluscos. Nos caramujos ela serve para raspar algas de rochas; no polvo, para raspar e transportar fragmentos de tecido já cortados pelo bico.
Há ainda uma estrutura acessória, presente em várias espécies: a rádula acessória, ou órgão perfurador. Combinada com secreções que amolecem o carbonato de cálcio, ela abre um furo circular limpo em conchas de bivalves e gastrópodes.
Esses furos são reconhecíveis e ficam preservados nas conchas descartadas. Encontrar valvas com um orifício circular próximo ao músculo adutor é assinatura de predação por polvo.
As glândulas salivares
Existem dois pares. As glândulas salivares anteriores produzem muco lubrificante. As posteriores, bem maiores, produzem a secreção que faz o trabalho pesado.
Essa secreção é uma mistura complexa que inclui:
- Neurotoxinas — cefalotoxinas e compostos correlatos, que paralisam a presa rapidamente;
- Enzimas digestivas — proteases e quitinases, que iniciam a digestão antes da ingestão;
- Agentes de descolamento — substâncias que soltam a musculatura da parede interna da concha ou da carapaça.
Esse último item é o mais engenhoso. Depois de injetar a saliva num caranguejo, o polvo espera alguns minutos e então consegue extrair a carne praticamente inteira, sem precisar quebrar o exoesqueleto em pedaços. É digestão externa parcial.
- Material do bico
- Quitina reforçada com proteína, em gradiente de rigidez
- Estrutura mais rígida
- A ponta; a base é flexível
- Rádula
- Fita com fileiras de dentículos, comum a quase todos os moluscos
- Órgão perfurador
- Rádula acessória, presente em várias espécies
- Glândulas salivares
- Dois pares; as posteriores produzem a secreção tóxica
- Espécies venenosas
- Todas; apenas o polvo-de-anéis-azuis é perigoso para pessoas
Todo polvo é venenoso
A afirmação surpreende, mas é correta: todas as espécies de polvo conhecidas produzem secreção tóxica nas glândulas salivares. A função é subjugar presas, não se defender.
Para pessoas, essa toxicidade é irrelevante na quase totalidade dos casos. Uma mordida de polvo-comum causa dor local, sangramento e às vezes inchaço prolongado — desagradável, sem gravidade. A exceção é o polvo-de-anéis-azuis, cuja saliva contém tetrodotoxina de origem bacteriana e representa risco real.
Vale a distinção técnica: venenoso, no português corrente, cobre tanto animais que injetam (peçonhentos) quanto animais tóxicos ao serem ingeridos. Polvos injetam pela mordida, o que os coloca na primeira categoria.
O trajeto depois da boca
Do bico o alimento passa pelo esôfago, e aqui aparece uma das esquisitices anatômicas mais citadas do grupo: o esôfago atravessa o meio do cérebro, que forma um anel em volta dele. Engolir um pedaço grande demais comprimiria o tecido nervoso.
É por isso que o polvo desmonta a comida em porções pequenas antes de engolir, e nunca ingere presas inteiras. A limitação anatômica moldou o comportamento alimentar da linhagem inteira.
Adiante o alimento chega ao papo, ao estômago e ao ceco, onde ocorre a maior parte da absorção. A glândula digestiva, análoga funcional do fígado, produz enzimas e armazena reservas. O sistema é curto e rápido, compatível com o metabolismo elevado e o crescimento acelerado desses animais.
Perguntas frequentes
Mordida de polvo é perigosa?
Na quase totalidade das espécies, não: causa dor local e sangramento, sem gravidade. A exceção é o polvo-de-anéis-azuis, cuja saliva contém tetrodotoxina e exige atendimento médico imediato.
Por que o polvo não engole a presa inteira?
Porque o esôfago atravessa o meio do cérebro. Pedaços grandes comprimiriam o tecido nervoso, então o animal corta a comida em porções pequenas antes de engolir.
O que é aquele furo redondo nas conchas na praia?
Pode ser marca de predação. Polvos e alguns caramujos perfuram conchas com a rádula para acessar o animal dentro. No caso do polvo, o furo tende a ficar próximo ao músculo que mantém as valvas fechadas.