A pergunta mais interessante sobre um polvo não é quantos braços ele tem, e sim quem está no comando deles. A resposta é menos óbvia do que parece: em boa medida, cada braço comanda a si mesmo.
Os números do sistema nervoso
Um polvo-comum adulto tem aproximadamente 500 milhões de neurônios. Para comparação, um rato tem cerca de 200 milhões e um cão, algo em torno de 2 bilhões. Já é um número alto para um invertebrado — a maioria dos moluscos trabalha com dezenas de milhares.
O que chama atenção não é o total, e sim a distribuição. Cerca de um terço desses neurônios está no cérebro central. Os outros dois terços estão nos braços, organizados em cordões nervosos com gânglios locais que se repetem ao longo de toda a extensão de cada apêndice.
Em vertebrados, a medula espinhal executa reflexos, mas o processamento fica concentrado no cérebro. No polvo, o sistema é genuinamente distribuído: cada braço tem capacidade computacional própria e resolve boa parte dos próprios problemas motores localmente, informando o centro apenas o resultado.
Como um braço sem osso se move
Braço de polvo é um hidrostato muscular. Não há esqueleto contra o qual os músculos possam se apoiar, então eles se apoiam contra o volume incompressível de água presente nos próprios tecidos.
Três conjuntos musculares trabalham juntos: fibras longitudinais, que encurtam o braço; fibras transversais, que o afinam e, por consequência, o alongam; e fibras oblíquas, que produzem torção. Combinações diferentes geram qualquer movimento imaginável, em qualquer ponto do braço.
Isso cria um problema de controle interessante. Um braço humano tem sete graus de liberdade e o cérebro já tem trabalho para coordená-lo. Um braço de polvo tem, na prática, infinitos. Controlar oito deles de forma centralizada seria inviável.
A solução: gestos pré-programados
Experimentos clássicos mostraram que, ao alcançar um objeto, o braço executa sempre a mesma sequência estereotipada: uma onda de contração viaja da base para a ponta, criando uma articulação temporária que se desloca ao longo do braço. O movimento reduz um problema de infinitos graus de liberdade a algo parecido com um braço articulado simples.
Mais revelador: essa onda continua acontecendo em braços isolados, desconectados do corpo, quando estimulados. O programa motor está no braço, não no cérebro. O centro apenas decide o que fazer e para onde ir; o como fica por conta do apêndice.
- Neurônios totais
- Cerca de 500 milhões em Octopus vulgaris
- Proporção nos braços
- Aproximadamente dois terços
- Ventosas por braço
- 200 a 300, conforme espécie e tamanho
- Receptores por ventosa
- Dezenas de milhares, químicos e mecânicos
- Regeneração de braço
- Completa, em semanas a meses
- Lobos cerebrais identificados
- Mais de 30
Ventosas que provam o mundo
Cada ventosa é ao mesmo tempo um dispositivo de preensão e um órgão sensorial. A preensão é puramente muscular: o infundíbulo, câmara interna revestida de tecido flexível, reduz a pressão em relação à água externa. Não há adesivo nem gancho.
A parte sensorial é mais surpreendente. As bordas concentram uma densidade altíssima de receptores. Alguns detectam pressão e textura; outros detectam moléculas por contato direto, num sentido que não corresponde exatamente nem ao nosso paladar nem ao nosso olfato. Pesquisas publicadas em 2020 identificaram famílias de receptores quimiotáteis específicos de cefalópodes, sintonizados em moléculas pouco solúveis em água — exatamente o tipo de substância que reveste a superfície de presas e de outros animais.
A consequência prática é notável: um polvo consegue enfiar um braço numa fresta que não vê e determinar se o que está lá dentro é um caranguejo vivo, uma pedra ou uma concha vazia, apenas encostando.
Por que o polvo não se agarra sozinho
Ventosas que grudam em qualquer coisa criariam um problema óbvio: oito braços cobertos delas se enroscariam permanentemente. Um estudo de 2014 encontrou a solução. A pele do polvo produz uma substância química que inibe a adesão das ventosas — braços isolados agarravam quase tudo que se oferecia, mas evitavam ativamente pedaços de pele de polvo.
O mais curioso: braços amputados evitavam também a pele do próprio animal doador, mas com menos intensidade do que evitavam braços de outros indivíduos. Há indícios de reconhecimento de si mesmo em nível puramente periférico, sem participação do cérebro.
Perder e refazer um braço
Braços podem ser descartados sob ataque, num processo chamado autotomia. O apêndice destacado continua se movendo e agarrando por um tempo considerável, o que ajuda a distrair o predador enquanto o animal escapa.
A regeneração é completa. Em semanas surge um broto, que ao longo de meses se alonga, desenvolve ventosas e reincorpora a musculatura e a inervação. O braço novo costuma ficar funcionalmente idêntico ao original, às vezes com ventosas ligeiramente menores na ponta.
O que o polvo sabe sobre o próprio corpo
Este é um dos debates em aberto mais interessantes da área. Experimentos indicam que o polvo tem informação proprioceptiva limitada: ele não parece manter um mapa preciso da posição de cada braço no espaço, como fazemos com os nossos membros.
Se isso for confirmado, a implicação é significativa. Significa que o animal opera com uma representação de si mesmo bastante diferente da nossa: em vez de "sei onde meu braço está e o movo até lá", algo mais próximo de "envio a intenção e o braço se encarrega". Trabalhos mais recentes sugerem que exista alguma propriocepção, possivelmente mediada pelas próprias ventosas, e a questão continua sendo investigada.
Seja qual for a resposta, o ponto permanece: um polvo é menos um indivíduo com oito membros e mais uma federação de unidades semiautônomas negociando com um centro. É por isso que ele aparece com tanta frequência em discussões filosóficas sobre a natureza da mente, tema que retorna no artigo sobre inteligência.
Perguntas frequentes
O braço cortado de um polvo continua se mexendo?
Sim, por um tempo considerável. Como o braço tem seus próprios gânglios e programas motores, ele continua reagindo a estímulos e até agarrando objetos depois de separado do corpo.
Polvo regenera braço perdido?
Sim, e de forma completa. O processo leva de semanas a meses e restaura musculatura, ventosas e inervação.
Quantas ventosas tem um polvo?
Entre 1.600 e 2.000 em um polvo-comum adulto, distribuídas em 200 a 300 por braço. Espécies maiores, como o polvo-gigante-do-pacífico, chegam a cerca de 2.240.