Nenhum animal muda de aparência tão rápido quanto um cefalópode. Um camaleão leva minutos e trabalha com uma paleta limitada. Um polvo troca de cor, brilho, padrão e textura em menos de um segundo, e pode reverter tudo na mesma velocidade. O sistema que faz isso é, em vários aspectos, sem paralelo na biologia.
Quatro variáveis, não uma
Falar em "mudar de cor" simplifica demais. A camuflagem de um cefalópode combina quatro componentes controlados de forma independente:
- Cor — produzida por células pigmentares chamadas cromatóforos, que se expandem e contraem;
- Brilho e reflexo — controlados por iridóforos e leucóforos, camadas de células que refletem e espalham luz sem usar pigmento;
- Padrão — a distribuição espacial dessas células ativadas, formando manchas, listras, barras ou uniformidade;
- Textura — papilas, projeções da pele erguidas por músculos próprios, que transformam uma superfície lisa em algo rugoso como pedra ou ramificado como alga.
A textura é a parte mais impressionante e a mais ignorada. Um polvo pode fazer a pele imitar a superfície de um coral, com espinhos e reentrâncias, e sustentar essa configuração por mais de uma hora. A mecânica celular de cada componente está detalhada no texto sobre cromatóforos.
Controle nervoso direto
A diferença fundamental em relação a outros animais que mudam de cor está no mecanismo de comando. Em camaleões e peixes, a mudança envolve hormônios e migração de pigmento dentro das células, o que leva de segundos a minutos.
Em cefalópodes, cada cromatóforo é um saco de pigmento cercado por músculos radiais, e cada um desses músculos recebe inervação direta do cérebro. Não há intermediário químico. O cérebro comanda a pele como comandaria um músculo — e por isso a resposta é praticamente instantânea.
Um polvo-comum tem algo em torno de um a dois milhões de cromatóforos. O sistema nervoso dedica uma fração substancial dos seus recursos a esse controle.
A retina da grande maioria dos cefalópodes contém um único tipo de pigmento visual. Do ponto de vista clássico, isso significa que eles não distinguem cores — e ainda assim combinam com fundos coloridos de maneira convincente. Como isso é possível continua sendo uma das perguntas em aberto mais discutidas da biologia marinha.
Como acertar a cor sem enxergar cor
Existem três linhas de explicação, não necessariamente excludentes.
A primeira é a mais simples: talvez cor não importe tanto. Predadores detectam presas sobretudo por contraste de brilho e por quebra de contorno. Se o animal acerta luminosidade, padrão e textura, o predador não repara na cor. Testes de percepção apoiam essa ideia.
A segunda propõe que a informação de cor seja extraída de outra maneira. Um estudo de 2016 mostrou que a pupila em forma de W de algumas espécies, combinada com a aberração cromática do cristalino, poderia permitir estimar cor variando o foco — comprimentos de onda diferentes focam em distâncias diferentes. A hipótese é elegante, mas ainda não é consenso.
A terceira parte da descoberta de opsinas, as proteínas da visão, na própria pele de cefalópodes. Se a pele detecta luz localmente, poderia haver ajuste sem passar pelo cérebro. A presença das opsinas está confirmada; o que elas fazem de fato, ainda não.
- Tempo de resposta
- Menos de um segundo para mudança completa
- Cromatóforos
- Cerca de 1 a 2 milhões em um polvo adulto
- Comando
- Nervoso direto, sem intermediação hormonal
- Componentes controlados
- Cor, brilho, padrão e textura
- Duração de uma textura
- Papilas sustentadas por mais de uma hora
- Visão de cor
- Um único pigmento visual na maioria das espécies
As estratégias, uma a uma
Combinação de fundo
Reproduzir a aparência geral do substrato. É a estratégia mais óbvia e funciona bem em fundos homogêneos, como areia ou lama.
Coloração disruptiva
Em vez de imitar o fundo, exibir manchas de alto contraste que quebram o contorno do corpo. O predador enxerga formas soltas, não um animal. É a melhor solução em fundos irregulares, como recifes.
Mimetismo de objeto
Assumir a forma e a cor de algo que não interessa a ninguém: uma pedra coberta de alga, um coral, um pedaço de madeira. Envolve postura corporal além de pele.
Mimetismo de outros animais
O caso extremo é o polvo-mímico do Indo-Pacífico, que altera cor, textura e postura para lembrar peixe-leão, linguado e serpente-marinha, entre outros. A interpretação mais aceita é que ele imita animais peçonhentos ou não palatáveis. Vale a ressalva de que a maior parte desses registros vem de observações de mergulho, não de estudo experimental controlado.
Contrailuminação
Em mar aberto, o problema não é o fundo, é a silhueta contra a luz vinda de cima. Algumas lulas resolvem isso com fotóforos na face ventral que emitem luz na intensidade exata da luz ambiente, apagando a própria sombra.
Transparência
Muitas lulas pelágicas e larvas de cefalópodes são quase invisíveis, com tecidos transparentes. Funciona bem em água aberta, onde não há fundo com que combinar.
Quando a pele não serve para esconder
Nem todo padrão é camuflagem. A mesma maquinaria produz sinais que fazem exatamente o contrário:
- Advertência — os anéis do polvo-de-anéis-azuis, que acendem em menos de um segundo diante de ameaça;
- Sobressalto — exibição súbita de manchas que simulam olhos grandes, ganhando o instante necessário para a fuga;
- Comunicação — em sépias e em algumas lulas, padrões dirigidos a rivais e a parceiros, às vezes com metades do corpo exibindo mensagens diferentes ao mesmo tempo;
- Estado interno — a coloração em repouso muda com excitação, estresse e alerta, funcionando como indicador do estado do animal.
É um sistema de sinalização visual sofisticado operado por animais que, na maioria dos casos, são solitários e não têm com quem conversar. Nas espécies mais sociais, como algumas sépias e lulas de recife, ele é usado em toda a extensão.
Perguntas frequentes
Polvos enxergam cores?
Provavelmente não da forma como nós enxergamos: a retina da maioria das espécies tem um único tipo de pigmento visual. Como conseguem combinar com fundos coloridos é uma questão ainda em aberto.
Quanto tempo o polvo leva para mudar de cor?
Menos de um segundo. O controle é nervoso direto, sem intermediação hormonal, o que torna a resposta muito mais rápida que a de camaleões e peixes.
O polvo muda só de cor ou também de textura?
Também de textura. Músculos próprios erguem projeções da pele chamadas papilas, capazes de reproduzir superfícies rugosas como pedra, coral ou alga.