Poucos animais passaram tanto tempo na fronteira entre o folclore e a zoologia. A lula-gigante foi descrita cientificamente no século XIX a partir de restos encalhados, apareceu em relatos de marinheiros por séculos antes disso e só foi fotografada viva em 2004. O vídeo em seu próprio habitat veio oito anos mais tarde.
O tamanho, com os números certos
Fêmeas adultas chegam a cerca de treze metros de comprimento total, medida que inclui os dois tentáculos alimentares esticados. Essa é a parte que engana: o corpo propriamente dito — o manto — mede em torno de dois metros. Machos são menores, com total próximo de dez metros.
O peso máximo confirmado fica em torno de 275 quilos. Estimativas maiores existem, mas dependem de extrapolação a partir de bicos encontrados no estômago de cachalotes, e não de animais medidos.
A lula-gigante (Architeuthis dux) é a mais comprida. A lula-colossal (Mesonychoteuthis hamiltoni), do Oceano Antártico, é a mais pesada e robusta, podendo passar de 450 quilos com um manto muito mais volumoso. A colossal também tem ganchos giratórios nas ventosas, enquanto a gigante tem anéis dentados.
O maior olho do reino animal
O olho da lula-gigante pode chegar a 27 centímetros de diâmetro, o maior conhecido em qualquer animal vivo ou extinto. Um órgão desse tamanho é caro de manter e só compensa se houver ganho real.
A hipótese mais aceita, formulada a partir de modelagem óptica, é que esse olho não serve para enxergar presas pequenas, e sim para detectar, a dezenas de metros de distância, o brilho fraco produzido por organismos bioluminescentes perturbados pela aproximação de um cachalote. Em outras palavras: é um detector de predador, não de comida.
- Nome científico
- Architeuthis dux Steenstrup, 1857
- Comprimento total
- Até cerca de 13 m em fêmeas
- Comprimento do manto
- Em torno de 2 m
- Peso máximo confirmado
- Aproximadamente 275 kg
- Diâmetro do olho
- Até 27 cm
- Profundidade habitual
- 300 a 1.000 m
- Apêndices
- 8 braços e 2 tentáculos alimentares
A guerra com o cachalote
A relação entre lula-gigante e cachalote é o dado mais sólido que temos sobre a ecologia da espécie. Estômagos de cachalotes contêm bicos de lula-gigante às centenas, e a pele desses baleias frequentemente exibe marcas circulares deixadas pelos anéis dentados das ventosas.
Aquelas cenas de cachalote e lula travando batalhas épicas pertencem à ilustração, não à observação: ninguém jamais filmou um encontro completo. O que a evidência mostra é predação em larga escala, com o cachalote levando ampla vantagem.
Como finalmente foi vista
Durante quase dois séculos, tudo o que se sabia vinha de carcaças encalhadas, animais capturados acidentalmente em redes e restos em estômagos de baleias. Em 2004, pesquisadores japoneses obtiveram a primeira sequência de fotografias de um animal vivo, a cerca de 900 metros de profundidade, usando isca e câmera automática.
Em 2012, uma expedição conseguiu o primeiro vídeo de uma lula-gigante viva em seu ambiente, no Pacífico Norte. A estratégia envolveu um submersível com iluminação vermelha, invisível para o animal, e um chamariz que imitava o padrão luminoso de uma água-viva em alarme.
Uma espécie só
Havia dúvida sobre quantas espécies existiam no gênero. Análises genéticas de amostras coletadas em todo o mundo indicaram diversidade genética muito baixa e nenhuma estruturação geográfica clara, o que sustenta a interpretação de que se trata de uma única espécie de distribuição global.
A baixa diversidade sugere algo mais: a população pode ter passado por um gargalo recente em escala evolutiva, ou as larvas se dispersam tanto pelas correntes que mantêm o pool genético misturado no planeta inteiro.
O que ainda não se sabe
Muita coisa. Quanto tempo vive, com que idade se reproduz, como se reproduz, quantos indivíduos existem, se forma agregações — nada disso está estabelecido. Estimativas de longevidade apontam para cerca de cinco anos, com base em anéis de crescimento em estruturas internas, mas o intervalo de erro é grande.
Curiosamente, a raridade dos avistamentos não significa raridade do animal. A quantidade de bicos em estômagos de cachalote sugere uma população considerável. A lula-gigante é rara para nós, não no oceano — o que diz mais sobre nossa capacidade de olhar o mar profundo do que sobre a espécie.
Perguntas frequentes
A lula-gigante ataca navios?
Não há registro verificado disso. Os relatos históricos de ataques a embarcações misturam observações reais de animais moribundos na superfície com exagero de narrativa marítima. O tema é tratado no artigo sobre o kraken.
Qual é a diferença entre lula-gigante e lula-colossal?
A gigante é mais comprida, por causa dos tentáculos longos. A colossal é mais pesada e robusta, vive no Oceano Antártico e tem ganchos giratórios nas ventosas em vez de apenas anéis dentados.
Onde vive a lula-gigante?
Em todos os oceanos, geralmente entre 300 e 1.000 metros de profundidade, com maior frequência de encalhes registrada perto da Nova Zelândia, do Japão, da Noruega e da Terra Nova.