Quase tudo que se diz sobre cefalópodes tem exceção, e as duas maiores estão aqui. O nautilus ficou parado no tempo, preservando um plano corporal que o resto do grupo abandonou. A lula-vampira não é lula nem polvo, vive num lugar onde quase nada respira e come exatamente aquilo que ninguém queria.
Nautilus: o único com concha por fora
Todos os cefalópodes modernos descendem de animais com concha externa. Lulas, sépias e polvos internalizaram ou perderam essa estrutura ao longo da evolução — o sépion e a pena da lula são o que sobrou dela. O nautilus, não: continua carregando uma concha espiralada calcária, dividida em câmaras.
O animal ocupa apenas a última e maior câmara. As anteriores ficam cheias de gás e são atravessadas por um tubo de tecido vivo, o sifúnculo, capaz de retirar líquido delas por transporte osmótico. É esse mecanismo que controla a flutuação — mais lento que o da sépia, mas suficiente para migrações verticais diárias.
Um olho sem lente
Enquanto polvos e lulas desenvolveram olhos de câmara com cristalino comparáveis aos dos vertebrados, o nautilus ficou com um olho de orifício, sem lente nenhuma. Funciona como uma câmara escura primitiva: forma imagem, mas com pouquíssima luz e baixa definição. Ele compensa com um olfato apurado, que usa para localizar carcaças no fundo.
O único que não morre depois de reproduzir
Esta é a diferença mais interessante. Polvos, lulas e sépias reproduzem-se uma vez e morrem. O nautilus se reproduz várias vezes ao longo da vida, põe poucos ovos grandes e vive de quinze a vinte anos, com maturidade sexual alcançada por volta dos dez. É um animal lento em todos os sentidos — e essa lentidão explica boa parte da sua vulnerabilidade.
- Gêneros viventes
- Nautilus e Allonautilus
- Diâmetro da concha
- Até cerca de 25 cm
- Tentáculos
- Cerca de 90, sem ventosas
- Profundidade
- Cerca de 150 a 700 m; a concha implode perto de 800 m
- Longevidade
- 15 a 20 anos
- Reprodução
- Repetida ao longo da vida
- Proteção
- Incluído no Apêndice II da CITES em 2016
Chamar o nautilus de fóssil vivo é conveniente, mas impreciso. O grupo dos nautiloides existe há cerca de 500 milhões de anos, e as formas atuais não são idênticas às antigas — passaram por sua própria história evolutiva. O que se conservou foi o plano geral do corpo, não o animal exato.
Lula-vampira: nem lula, nem polvo
Vampyroteuthis infernalis — literalmente "lula-vampira do inferno" — ocupa uma ordem própria, a Vampyromorphida, e é o único membro vivo dela. Anatomicamente, mistura características dos dois grupos: tem oito braços unidos por uma membrana ampla, como um polvo, mas conserva nadadeiras e vestígios que a aproximam das lulas.
O nome vem da aparência: corpo escuro arroxeado, olhos grandes e a membrana entre os braços que lembra uma capa. Apesar da fama, é um animal pequeno, com cerca de trinta centímetros de comprimento total, e completamente inofensivo.
Vivendo onde falta oxigênio
O habitat é a zona de mínimo oxigênio, uma faixa que costuma ficar entre 600 e 1.200 metros, onde a concentração de oxigênio cai a níveis que expulsam quase todos os outros predadores. A lula-vampira consegue viver ali graças a uma combinação de adaptações: hemocianina de altíssima afinidade por oxigênio, metabolismo baixíssimo, corpo gelatinoso com pouca massa muscular e brânquias proporcionalmente grandes.
Comendo neve marinha
Durante muito tempo se presumiu que fosse predadora. Estudos de conteúdo estomacal e observação com submersíveis mostraram outra coisa: ela estende dois filamentos longos e finos, que ficam à deriva captando partículas em queda — restos de organismos, fezes, muco, o que se chama de neve marinha. Depois recolhe o filamento, limpa o material com muco produzido nas ventosas e leva à boca em bolinhas.
É o único cefalópode conhecido que não é predador ativo. A estratégia faz todo sentido num ambiente onde caçar custaria mais energia do que a presa forneceria.
Defesa sem tinta
Sem oxigênio disponível para fugas rápidas e sem escuridão a ganhar com tinta preta em água já preta, ela desenvolveu outras respostas. Uma delas é a postura de abóbora: vira a membrana dos braços por cima do corpo, expondo espinhos moles e escondendo tudo mais. A outra é expelir uma nuvem de muco carregado de partículas bioluminescentes azuis, que fica brilhando na água enquanto o animal se afasta no escuro.
Também escapa da regra da morte
Assim como o nautilus, a lula-vampira não segue o padrão de reprodução única. Análises de fêmeas coletadas mostraram ovários em fases alternadas de atividade e repouso, indicando ciclos reprodutivos repetidos ao longo de uma vida que pode passar de oito anos. Num ambiente pobre em alimento, acumular energia para uma única desova massiva simplesmente não é viável.
O que essas duas exceções ensinam
Regras biológicas descrevem tendências, não leis. "Cefalópode vive pouco e morre após reproduzir" vale para a maioria das espécies que conhecemos bem — que são, não por acaso, as costeiras e de fácil acesso. Quando se olha para ambientes extremos, o padrão se dissolve. É um bom lembrete de que boa parte do que sabemos sobre o oceano vem de onde é mais fácil olhar.
Perguntas frequentes
A lula-vampira é perigosa?
De forma alguma. Tem cerca de trinta centímetros, corpo gelatinoso, não é predadora e se alimenta de partículas em suspensão. O nome vem da aparência escura e da membrana entre os braços.
Por que o nautilus está ameaçado?
Pela coleta de conchas para o comércio de souvenires e decoração, combinada com um ciclo de vida muito lento: leva cerca de dez anos para amadurecer e põe poucos ovos. Desde 2016 o comércio é regulado pela CITES.