Reprodução

Reprodução dos cefalópodes: cortejo, hectocótilo e desova

Um braço vira órgão reprodutor, o macho entrega espermatóforos e a fêmea escolhe quando usá-los.

Dois polvos de tamanhos diferentes frente a frente no fundo do mar, um deles esticando um braço
O macho mantém distância e estica um único braço. É o hectocótilo que faz a entrega, e a cautela evita que ele vire refeição.

A reprodução dos cefalópodes reúne soluções que não existem em nenhum outro grupo animal: um braço que vira órgão sexual e às vezes se desprende para nadar sozinho, fêmeas que estocam esperma por meses e escolhem qual usar, e um cuidado parental que termina invariavelmente com a morte da mãe.

O braço que virou órgão

Machos de polvo não têm pênis. O que têm é um dos oito braços modificado, chamado hectocótilo. Em Octopus vulgaris é o terceiro braço direito, e a modificação consiste em um sulco ao longo da face interna terminando numa estrutura especializada na ponta, a lígula.

A função do hectocótilo é transportar espermatóforos — cápsulas alongadas que contêm o esperma empacotado — desde a abertura do manto do macho até a cavidade do manto da fêmea, onde são depositados junto ao oviduto.

Espermatóforo não é um simples envelope. É um dispositivo com mecanismo próprio: em contato com a água do mar, um sistema de pressão interna dispara e evagina a estrutura, liberando o esperma e ancorando-o no tecido. Em algumas espécies o processo é tão vigoroso que já foi comparado a um pequeno lançamento.

O braço que nada sozinho

Nos polvos-de-papel do gênero Argonauta, o macho é minúsculo — poucos milímetros contra até 30 centímetros da fêmea. Ele destaca completamente o hectocótilo carregado, que nada por conta própria até a fêmea e se aloja na cavidade do manto dela. Quando esse braço foi descrito pela primeira vez no século XIX, foi classificado como um verme parasita e recebeu nome científico próprio.

Cortejo e disputa

O comportamento reprodutivo varia bastante conforme a espécie e o quanto ela é social.

Em polvos solitários, o encontro costuma ser breve e cauteloso. O macho se aproxima com o hectocótilo estendido, muitas vezes mantendo distância considerável — o que faz sentido, considerando o risco de canibalismo. A transferência pode durar de alguns minutos a mais de uma hora.

Em sépias e lulas, há cortejo elaborado com exibições de pele. Machos disputam fêmeas com padrões de listras dirigidos ao rival, e o vencedor costuma guardar a fêmea por um período, afastando concorrentes.

Táticas alternativas aparecem em várias espécies. Machos pequenos, sem chance em disputa direta, adotam coloração de fêmea, escondem o braço modificado e atravessam o território do dominante sem ser reconhecidos. A frequência de sucesso dessa estratégia é surpreendentemente alta, e ela é acompanhada por diferenças fisiológicas: machos "sorrateiros" costumam produzir espermatóforos maiores.

A fêmea decide depois

Fêmeas de muitas espécies armazenam espermatóforos por semanas ou meses antes de fertilizar os óvulos. Isso desloca o momento da escolha: o acasalamento deixa de ser o evento decisivo, e a competição espermática passa a ocorrer dentro do corpo da fêmea.

Análises genéticas de posturas mostram, de fato, paternidade múltipla frequente — uma mesma desova pode ter filhotes de vários pais. Há indícios de que a fêmea tenha algum controle sobre qual esperma é usado, embora os mecanismos exatos ainda estejam sendo investigados.

Órgão de transferência
Hectocótilo, um dos oito braços modificado
Pacote de esperma
Espermatóforo, com mecanismo próprio de liberação
Ovos por desova (polvo-comum)
100 mil a 500 mil
Cuidado parental
Exclusivo da fêmea, sem alimentação
Duração do cuidado
1 a 10 meses, conforme espécie e temperatura
Estocagem de esperma
Semanas a meses

A desova

A fêmea escolhe um abrigo protegido e deposita os ovos em cordões ou cachos presos ao teto. O número varia enormemente: espécies com ovos pequenos e paralarvas planctônicas põem centenas de milhares; espécies com ovos grandes e filhotes bentônicos põem poucas dezenas.

Essa é uma divisão importante do grupo. Ovos pequenos geram paralarvas que passam semanas à deriva no plâncton, com mortalidade altíssima e enorme capacidade de dispersão. Ovos grandes geram filhotes já parecidos com adultos, que descem direto para o fundo, com sobrevivência muito maior e dispersão limitada.

O cuidado que mata

A partir da desova, a fêmea não sai mais do abrigo. Ela passa o tempo inteiro:

  • ventilando os ovos com jatos de água pelo sifão, para garantir oxigenação;
  • limpando-os com as pontas dos braços, removendo sedimento, algas e larvas de outros organismos;
  • defendendo a entrada de qualquer coisa que se aproxime.

E, crucialmente, ela não come. Nem uma vez, durante todo o período — que em espécies de água fria pode passar de seis meses. O organismo consome as próprias reservas e depois a própria musculatura.

Quando os filhotes eclodem, a fêmea já está em colapso: perde massa, a pele se deteriora, os olhos ficam opacos e o comportamento se desorganiza. Ela morre em dias. Esse processo tem nome, senescência, e é controlado por um sistema endócrino específico descrito no artigo sobre ciclo de vida.

O macho não escapa. Após o acasalamento, ele também entra em declínio e morre em semanas ou poucos meses, sem qualquer participação no cuidado com a prole.

Quatro anos e meio sem comer

O caso extremo foi documentado por uma equipe que acompanhou, com submersível, uma fêmea de Graneledone boreopacifica a cerca de 1.400 metros de profundidade no Pacífico. Ela foi observada no mesmo ponto, sobre os mesmos ovos, em dezenas de visitas ao longo de quatro anos e cinco meses.

Em nenhuma delas foi vista se alimentando. É o mais longo período de cuidado parental já registrado em qualquer animal. A explicação está na temperatura: a cerca de 3 °C, o desenvolvimento embrionário é lentíssimo — e o resultado são filhotes grandes e bem desenvolvidos, com chances de sobrevivência muito acima da média do grupo.

Quem foge da regra

Nem todos morrem depois de reproduzir. O nautilus se reproduz várias vezes ao longo de quinze a vinte anos de vida. A lula-vampira também alterna ciclos de desova e repouso. E o polvo-listrado-do-pacífico, Octopus chierchiae, é um raro caso entre os polvos com reprodução repetida, o que o tornou um modelo interessante em laboratório justamente por permitir estudos de várias gerações.

O padrão que emerge é claro: reprodução única e morte imediata é a estratégia dos cefalópodes de vida rápida e ambiente produtivo. Onde o alimento é escasso e a vida é lenta, a evolução favoreceu o caminho oposto.

Perguntas frequentes

O polvo macho morre depois de acasalar?

Na maioria das espécies, sim. Ele entra em declínio fisiológico e morre em semanas ou poucos meses, sem participar do cuidado com os ovos.

Quantos ovos um polvo põe?

Depende da espécie. O polvo-comum põe de cem mil a quinhentos mil ovos pequenos. Espécies com ovos grandes põem apenas algumas dezenas, mas com filhotes muito mais desenvolvidos.

O que é o hectocótilo?

É um dos oito braços do macho, modificado para transferir os pacotes de esperma até a cavidade do manto da fêmea. Em alguns gêneros ele se destaca completamente e nada sozinho.


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