Se o polvo é o mestre da textura e a lula é a atleta da coluna d'água, a sépia é a artista visual do grupo. Nenhum outro cefalópode tem repertório tão elaborado de padrões de pele, e nenhum outro carrega uma solução tão elegante para o problema de flutuar.
O que é uma sépia
Sépias, ou chocos, formam a ordem Sepiida, com mais de cem espécies. Têm oito braços curtos e dois tentáculos alimentares retráteis, guardados em bolsas abaixo dos olhos e disparados em milissegundos quando surge uma presa. O corpo é achatado e cercado por uma nadadeira contínua que ondula em toda a extensão do manto.
Essa nadadeira permite algo raro entre cefalópodes: pairar parado, ajustar posição milimetricamente e nadar de ré com precisão, tudo sem gastar o esforço de um jato. A propulsão a jato fica reservada para emergências.
O osso que é um lastro ajustável
Dentro do manto há uma estrutura chamada sépion, o "osso de sépia" vendido em lojas de aves. Não é osso: é uma peça porosa de aragonita, formada por centenas de câmaras microscópicas separadas por pilares finíssimos.
Essas câmaras contêm uma mistura de gás e líquido. Ao bombear líquido para dentro ou para fora, o animal muda a própria densidade e sobe ou desce sem nadar — o mesmo princípio da bexiga natatória dos peixes, só que com estrutura rígida.
A rigidez tem um preço. A partir de aproximadamente duzentos metros de profundidade, a pressão externa passa a superar o que a estrutura suporta, e o sépion colapsa. É por isso que sépias são animais essencialmente costeiros e de plataforma continental.
- Ordem
- Sepiida
- Espécies
- Mais de 100 descritas
- Espécie de referência
- Sepia officinalis, o choco-comum europeu
- Tamanho do manto
- De 2 cm em espécies anãs a 50 cm na sépia-gigante-australiana
- Apêndices
- 8 braços e 2 tentáculos retráteis
- Limite de profundidade
- Cerca de 200 m, por causa do sépion
- Longevidade
- 1 a 2 anos
O repertório de pele
A sépia não muda apenas de cor: ela executa padrões com nome próprio, catalogados por pesquisadores ao longo de décadas. Alguns dos mais conhecidos:
- Nuvem passageira — faixas escuras que percorrem o corpo em ondas contínuas, usadas durante a aproximação de uma presa, possivelmente para desorientá-la;
- Padrão disruptivo — manchas de alto contraste que quebram o contorno do animal contra fundos irregulares;
- Zebra — listras marcadas exibidas por machos em disputa, geralmente no lado do corpo voltado para o rival;
- Mancha ocelar — dois pontos escuros que simulam olhos grandes, exibidos em resposta a ameaça.
A mecânica celular por trás disso está detalhada no artigo sobre cromatóforos. O que impressiona aqui é o controle: o animal pode exibir dois padrões diferentes em cada metade do corpo simultaneamente.
Em várias espécies, machos pequenos que não conseguem vencer disputas adotam uma tática alternativa: escondem o quarto braço (que nos machos é mais desenvolvido), assumem o padrão de coloração típico de fêmeas e atravessam o território do macho dominante sem serem atacados. Chegando perto da fêmea, revertem a coloração e tentam o acasalamento. A tática funciona com frequência surpreendentemente alta.
Enxergar cor sem ver cor
Aqui está um dos paradoxos mais discutidos da biologia marinha. A retina da sépia, como a da maioria dos cefalópodes, tem um único tipo de pigmento visual. Do ponto de vista da fisiologia clássica, isso significa monocromacia: o animal veria o mundo em tons de uma cor só.
Ainda assim, ele combina com fundos coloridos de maneira convincente. Existem duas explicações principais em disputa. A primeira é que a sépia não precisa ver cor: basta acertar o brilho e o padrão, e o resto o predador completa. A segunda, proposta em 2016, é que a forma peculiar da pupila em W e a aberração cromática do cristalino permitiriam extrair informação de cor variando o foco — uma solução engenhosa, mas ainda em debate.
A sépia também detecta a polarização da luz, algo invisível para nós, e usa isso para enxergar presas transparentes que, sem esse recurso, seriam praticamente indetectáveis.
Memória e autocontrole
Sépias são o cefalópode mais usado em experimentos de cognição depois do polvo-comum. Dois resultados se destacam.
O primeiro é uma versão marinha do teste do marshmallow: em experimentos publicados em 2021, sépias recusaram um camarão disponível de imediato quando aprenderam que esperar renderia um alimento preferido. Autocontrole desse tipo é raro fora de aves e mamíferos.
O segundo é a memória do tipo "o quê, onde, quando": elas se lembram de qual item de comida apareceu em qual lugar e há quanto tempo, ajustando a busca conforme o intervalo. Essa habilidade parece não se degradar com a idade, mesmo em animais já em senescência.
Sépias e pessoas
A tinta dessas espécies deu nome a uma cor. O pigmento sépia, extraído do saco de tinta, foi usado como tinta de escrita e de desenho na Europa por séculos, antes de ser substituído por versões sintéticas. O sépion, por sua vez, continua vendido como suplemento de cálcio para pássaros e como molde em joalheria artesanal.
Perguntas frequentes
Sépia e lula são a mesma coisa?
Não. Ambas têm oito braços e dois tentáculos, mas a sépia é achatada, tem nadadeira contínua ao redor do manto e um sépion rígido internamente. A lula é alongada, tem nadadeiras na ponta do manto e uma pena flexível no lugar do sépion.
O osso de sépia serve para quê?
Para controlar a flutuação. É uma estrutura porosa com câmaras que o animal enche de gás ou líquido para ajustar a própria densidade.
Sépias enxergam cores?
Provavelmente não da forma como nós enxergamos, já que possuem um único tipo de pigmento visual. Como conseguem combinar com fundos coloridos é uma questão em aberto na área.