Anatomia e características

Três corações e sangue azul: a engenharia circulatória

Dois corações branquiais, um sistêmico e hemocianina no lugar da hemoglobina. Entenda por que essa combinação existe.

Polvo translúcido visto por baixo, com a luz revelando as brânquias dentro do manto
A luz atravessando o manto revela as brânquias. É ali que os dois corações branquiais reoxigenam o sangue antes de devolvê-lo ao coração sistêmico.

"Polvo tem três corações e sangue azul" é provavelmente o fato mais repetido sobre esses animais. É verdade, e é bem mais interessante quando se entende por que essa configuração existe — e o que ela custa.

O problema começa no sangue

Vertebrados transportam oxigênio com hemoglobina, uma proteína que contém ferro e fica empacotada dentro de glóbulos vermelhos. Cefalópodes usam hemocianina, que contém cobre e circula dissolvida diretamente no plasma, sem célula nenhuma para carregá-la.

Quando o cobre se liga ao oxigênio, a molécula assume um tom azulado. Sem oxigênio, o sangue fica quase incolor, com um aspecto acinzentado. Daí a cor.

A hemocianina tem duas desvantagens claras: transporta menos oxigênio por unidade de volume que a hemoglobina e, por circular livre no plasma, deixa o sangue mais viscoso, o que aumenta o esforço de bombeamento. Faz sentido perguntar por que a evolução manteve esse arranjo.

Onde a hemocianina ganha

Em água fria e pobre em oxigênio, ela leva vantagem. A hemocianina continua captando e liberando oxigênio com eficiência em condições que reduziriam bastante o desempenho da hemoglobina. Para animais que vivem em água gelada ou em zonas de baixa oxigenação, é a solução melhor — e é justamente onde estão os cefalópodes de maior porte.

Por que três corações

Se o sangue carrega menos oxigênio e é mais viscoso, a resposta óbvia é bombear mais e melhor. O sistema circulatório dos cefalópodes faz exatamente isso, com uma divisão de trabalho:

  • Dois corações branquiais, um em cada brânquia, recebem o sangue vindo do corpo e o empurram através das lamelas branquiais, onde ocorre a captação de oxigênio. Sem eles, a pressão não seria suficiente para vencer a resistência das brânquias;
  • Um coração sistêmico, maior e com três câmaras, recebe o sangue já oxigenado e o distribui para o corpo inteiro por três aortas principais.

O resultado é um sistema circulatório fechado, com vasos definidos e pressão relativamente alta — outra diferença marcante em relação aos demais moluscos, que em geral têm circulação aberta, com o sangue banhando os tecidos diretamente.

Pigmento respiratório
Hemocianina, com dois átomos de cobre por sítio de ligação
Onde circula
Dissolvida no plasma, não dentro de células
Cor oxigenada
Azul
Cor desoxigenada
Praticamente incolor, levemente acinzentada
Corações
Dois branquiais e um sistêmico
Tipo de circulação
Fechada, incomum entre moluscos

O coração que para quando o bicho nada

Aqui está a consequência mais concreta desse arranjo. Durante a propulsão a jato, a contração violenta do manto eleva muito a pressão interna, e essa pressão comprime o coração sistêmico a ponto de interromper seu batimento.

Na prática, o polvo nada com o coração principal parado. Ele acumula um débito de oxigênio que precisa ser pago depois, em um período de recuperação que pode ser longo. Um polvo perseguido por vários minutos fica exausto de um jeito que não se resolve rapidamente.

Isso explica um comportamento que, de outro modo, pareceria contraintuitivo: um animal capaz de nadar rápido prefere caminhar pelo fundo com os braços na imensa maioria dos deslocamentos. Caminhar é lento, mas não desliga o coração.

Excreção e equilíbrio

O sistema circulatório trabalha em conjunto com os apêndices branquiais, estruturas ligadas aos corações branquiais que funcionam como órgãos excretores, filtrando resíduos nitrogenados do sangue. Cefalópodes eliminam amônia, o que exige muita água — outro fator que os prende ao ambiente marinho e explica por que não existe cefalópode de água doce.

Uma vulnerabilidade contemporânea

A afinidade da hemocianina pelo oxigênio depende fortemente do pH do sangue. Quando o pH cai, a proteína libera oxigênio mais facilmente — o que é bom durante o esforço muscular, mas ruim se a queda de pH for constante.

É por essa razão que a acidificação dos oceanos aparece em estudos como uma preocupação específica para cefalópodes. Mais dióxido de carbono dissolvido significa pH menor na água e, por consequência, no sangue do animal, com possível prejuízo à capacidade de transporte de oxigênio. Experimentos em laboratório mostram efeitos sobre atividade e desenvolvimento em várias espécies, embora a magnitude do impacto em populações naturais ainda esteja sendo avaliada. O tema reaparece no artigo sobre conservação.

Um resumo comparativo

CaracterísticaCefalópodeVertebrado
Pigmento respiratórioHemocianina (cobre)Hemoglobina (ferro)
Onde ficaDissolvido no plasmaDentro de hemácias
Cor oxigenadaAzulVermelha
CoraçõesTrêsUm
CirculaçãoFechada, alta pressãoFechada, alta pressão
Melhor desempenhoÁgua fria e pouco oxigenadaAmpla faixa, sobretudo em ar

A tabela deixa claro que não se trata de um sistema pior, e sim de um sistema otimizado para outro conjunto de condições. Num oceano frio e profundo, a escolha do cobre faz mais sentido do que a do ferro.

Perguntas frequentes

O sangue do polvo é azul mesmo?

Sim, quando oxigenado. A cor vem da hemocianina, proteína que usa cobre para transportar oxigênio. Sem oxigênio, o sangue fica quase incolor.

Para que servem os três corações?

Dois deles bombeiam sangue especificamente através das brânquias, vencendo a resistência desse tecido. O terceiro distribui o sangue oxigenado pelo restante do corpo.

Por que o polvo se cansa tão rápido nadando?

Porque a pressão gerada dentro do manto durante a propulsão a jato interrompe o batimento do coração sistêmico, gerando um débito de oxigênio que demora a ser pago.


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