Anatomia e características

Anatomia do polvo: mapa de um corpo sem esqueleto

Manto, sifão, brânquias, bico e oito braços. Um passeio por cada estrutura e pela função que ela cumpre.

Polvo nadando de perfil em água escura, com o manto, o sifão e o olho bem visíveis
De perfil a divisão do corpo fica clara: o manto bulboso atrás, a cabeça com o olho no meio e o sifão apontando para fora.

Um polvo é um molusco. O mesmo grupo do caramujo, da ostra e do mexilhão. Essa frase parece absurda até você entender o que aconteceu com cada parte do corpo ancestral — e é por aí que vale começar qualquer descrição anatômica desse bicho.

Se quiser acompanhar visualmente, o diagrama interativo deste guia mostra doze das estruturas descritas abaixo, com explicação em cada ponto.

O plano geral do corpo

Divida um polvo em três regiões e tudo fica mais simples de entender:

  • Manto — o saco arredondado que a maioria das pessoas chama de "cabeça". Não é cabeça: é o abdome, onde ficam os órgãos internos;
  • Cabeça — a região logo abaixo, que carrega os olhos e o cérebro;
  • Braços — os oito apêndices que partem em volta da boca.

A ordem, portanto, é ao contrário do que a intuição sugere: o "corpo" está por cima, a cabeça no meio e os braços por baixo. O nome do grupo, cefalópode, significa literalmente "cabeça-pé" — porque os braços derivam do pé muscular que o caramujo usa para rastejar.

O manto e a respiração

Nos moluscos com concha, o manto é o tecido que secreta o calcário. No polvo, ele virou uma bolsa muscular que envolve tudo. Entre o manto e o corpo existe um espaço, a cavidade paleal, por onde a água entra e sai.

O ciclo respiratório funciona assim: o manto relaxa e se expande, puxando água pela abertura frontal; as brânquias, duas estruturas penadas penduradas na cavidade, extraem o oxigênio; o manto contrai e a água é expelida pelo sifão. Cada contração serve, ao mesmo tempo, para respirar e para se mover.

O sifão

O sifão é um tubo muscular flexível que sai da cavidade do manto e pode ser apontado em praticamente qualquer direção. Dele saem a água da respiração, os resíduos, a tinta e, na desova, os ovos.

Como propulsor, ele funciona por reação: expulsar água para trás empurra o animal para frente. Girar o sifão muda a direção da fuga sem que o corpo precise se reorientar. Jatos fortes servem para escapar; jatos suaves, para deslocamento curto e para limpar a toca.

Por que polvos preferem caminhar

Propulsão a jato é rápida, mas cara. Durante o esforço, a pressão dentro do manto sobe tanto que o coração sistêmico chega a parar de bater, e o animal acumula um débito de oxigênio que leva tempo para pagar. Caminhar pelo fundo com os braços é lento, porém sustentável — e é o que o polvo faz na maior parte do tempo.

Três corações, sangue azul

Dois corações branquiais bombeiam sangue através de cada brânquia. Um coração sistêmico, maior, recebe o sangue já oxigenado e o distribui pelo corpo. A molécula de transporte não é a hemoglobina, e sim a hemocianina, que usa cobre em vez de ferro e deixa o sangue azulado quando oxigenado.

O arranjo tem lógica: como a hemocianina transporta menos oxigênio por volume, o sistema compensa aumentando a pressão e adicionando bombas dedicadas às brânquias. O texto específico sobre circulação detalha o funcionamento e as consequências ecológicas dessa escolha.

O bico e o sistema digestivo

No centro da coroa de braços fica a boca, e nela o bico: duas peças de quitina endurecida articuladas como um bico de papagaio invertido. É a única estrutura rígida do animal inteiro.

Logo atrás vem a rádula, uma fita com fileiras de dentes microscópicos, característica de todos os moluscos. Em algumas espécies existe ainda a rádula acessória, capaz de perfurar conchas. Glândulas salivares injetam substâncias que paralisam a presa e começam a soltar o tecido da carapaça antes mesmo da ingestão.

Um detalhe anatômico curioso e com consequência real: o esôfago atravessa o meio do cérebro, que forma um anel em volta dele. Engolir pedaços grandes é fisicamente arriscado, e é por isso que o polvo desmonta a comida em porções pequenas.

Estruturas rígidas
Apenas o bico; nenhum osso, cartilagem ou concha interna
Corações
Três: dois branquiais e um sistêmico
Brânquias
Duas, dentro da cavidade do manto
Braços
Oito, com ventosas em uma ou duas fileiras
Neurônios
Cerca de 500 milhões em Octopus vulgaris
Pigmento respiratório
Hemocianina, à base de cobre

Braços, não tentáculos

A distinção é técnica e vale conhecer. Braço tem ventosas ao longo de toda a extensão; tentáculo é mais longo, elástico, com ventosas concentradas numa clava na ponta. Polvos têm oito braços e nenhum tentáculo. Lulas e sépias têm oito braços e dois tentáculos.

Cada braço é um hidrostato muscular: uma estrutura sem esqueleto que se apoia na incompressibilidade da própria água contida nos tecidos. Músculos longitudinais, transversais e oblíquos, contraídos em combinações diferentes, permitem encurtar, alongar, dobrar em qualquer ponto e torcer.

Ventosas

Um polvo-comum adulto tem entre 1.600 e 2.000 ventosas. Cada uma é formada por um anel externo e uma câmara interna, o infundíbulo, cuja musculatura cria a sucção — não há cola nem gancho envolvido.

Mais importante que agarrar é sentir. A borda de cada ventosa concentra quimiorreceptores e mecanorreceptores capazes de identificar substâncias dissolvidas por contato direto. Na prática, o polvo prova aquilo que toca. Isso permite que ele avalie o interior de uma fresta escura sem enxergar nada.

A pele

A pele é a estrutura mais sofisticada do animal. Ela contém três tipos de células ópticas empilhadas em camadas — cromatóforos, iridóforos e leucóforos — e uma malha de músculos minúsculos que erguem projeções chamadas papilas, mudando a rugosidade da superfície.

Há ainda células sensíveis à luz distribuídas pela própria pele, fora dos olhos. O papel exato delas ainda é objeto de pesquisa, mas a hipótese mais discutida é que ajudem o animal a ajustar a coloração ao ambiente sem depender apenas da visão.

O sistema nervoso

Dos cerca de 500 milhões de neurônios de um polvo-comum, aproximadamente um terço está no cérebro central e dois terços nos braços, distribuídos em gânglios locais. É uma arquitetura sem paralelo: cada braço processa boa parte da própria informação sensorial e motora sem consultar o centro.

O cérebro central em si é um anel de lobos fundidos em torno do esôfago, com mais de trinta regiões identificadas em Octopus vulgaris. Uma delas, o lobo vertical, está associada a aprendizagem e memória e é o alvo preferido dos experimentos descritos no artigo sobre inteligência.

Perguntas frequentes

Polvo tem osso?

Não. A única estrutura rígida do corpo é o bico, feito de quitina. É justamente por isso que ele consegue passar por qualquer abertura maior que o próprio bico.

Qual a diferença entre braço e tentáculo?

Braço tem ventosas por toda a extensão. Tentáculo é mais longo, retrátil e tem ventosas apenas numa clava na ponta. Polvos têm oito braços e nenhum tentáculo.

Por que o polvo tem três corações?

Dois corações branquiais empurram o sangue pelas brânquias e um sistêmico o distribui pelo corpo. O arranjo compensa a menor capacidade de transporte de oxigênio da hemocianina.


Leia na sequência

Textos relacionados

Selecionados a partir da categoria e dos assuntos citados aqui.