Antes de existir zoologia, existiu o kraken. Um animal enorme, tentacular, capaz de afundar navios e de confundir marinheiros que o tomavam por ilha. A história de como esse monstro nasceu — e de como parte dele acabou se revelando verdadeira — é um bom estudo sobre a relação entre observação, medo e narrativa.
A origem nórdica
As menções mais antigas aparecem em textos escandinavos medievais. O Konungs skuggsjá, obra norueguesa do século XIII, descreve o hafgufa, uma criatura marinha tão grande que era confundida com uma ilha e que atraía peixes ao arrotar comida no mar.
O termo kraken se firma na literatura escandinava e chega à ciência em 1735, quando Carl von Linné o incluiu na primeira edição do Systema Naturae, o mesmo livro que estabeleceu a nomenclatura binomial. Ele o listou como Microcosmus marinus, um cefalópode. Nas edições seguintes, retirou a entrada.
Em 1752, o bispo norueguês Erik Pontoppidan publicou a descrição que se tornaria canônica: um animal do tamanho de uma ilha flutuante, capaz de afundar embarcações com o redemoinho gerado ao mergulhar. Ele registrou também que pescadores procuravam deliberadamente as águas onde o kraken estaria, porque a pesca ali era excepcional.
Muitos relatos antigos descrevem o kraken emergindo lentamente e permanecendo imóvel na superfície antes de afundar. Isso é compatível com o que se observa em lulas de mar profundo moribundas, que sobem à superfície e ficam à deriva por horas. Encontrar um animal de dez metros boiando é um evento raro e memorável — e material narrativo excelente.
A evidência física acumulada
Ao longo do século XIX, três tipos de evidência foram se somando até tornar insustentável tratar o assunto apenas como folclore:
- Encalhes. Carcaças de lulas enormes apareciam periodicamente em praias da Noruega, da Dinamarca e, sobretudo, da Terra Nova, no Canadá. Em 1857, o naturalista dinamarquês Japetus Steenstrup usou material desse tipo para descrever formalmente Architeuthis dux;
- Cicatrizes em baleias. Baleeiros relatavam há décadas marcas circulares na pele de cachalotes, compatíveis com anéis de ventosa de dimensões improváveis;
- Conteúdo estomacal. A abertura de estômagos de cachalotes revelava bicos de cefalópodes às centenas, incluindo peças de tamanho muito superior ao de qualquer lula conhecida na época.
Não havia mais como negar que existiam lulas gigantescas. O que ainda não havia era um animal vivo observado por alguém.
O monstro entra na literatura
Em 1870, Júlio Verne publicou Vinte Mil Léguas Submarinas, com a célebre cena do ataque de cefalópodes gigantes ao Nautilus. O timing não foi acidental: Verne acompanhava as notícias sobre encalhes e sobre o relato de 1861 do navio francês Alecton, cuja tripulação tentou içar uma lula enorme e conseguiu apenas um pedaço da cauda.
A cena de Verne fixou a imagem do cefalópode gigante como agressor no imaginário popular, e essa imagem atravessou o século XX praticamente intacta em ilustrações, capas de revista e cinema.
- Primeira menção escrita
- Século XIII, no Konungs skuggsjá norueguês
- Entrada em Lineu
- Primeira edição do Systema Naturae, 1735
- Descrição científica da lula-gigante
- 1857, por Japetus Steenstrup
- Primeira fotografia de animal vivo
- 2004, no Pacífico Norte
- Primeiro vídeo em habitat natural
- 2012
- Ataques a navios confirmados
- Nenhum
Outros cefalópodes no folclore
- Cila, o monstro de muitas cabeças da mitologia grega, é frequentemente interpretado como inspirado em cefalópodes, embora a evidência textual seja fraca;
- Akkorokamui, da mitologia ainu do norte do Japão, é um polvo gigante que habita baías e é ao mesmo tempo temido e reverenciado;
- Lusca, do Caribe, mistura polvo e tubarão em uma criatura que habitaria buracos azuis nas Bahamas;
- Polvo gigante do Pacífico Norte aparece em narrativas de vários povos indígenas da costa oeste norte-americana, geralmente associado a redemoinhos e a naufrágios.
O padrão é consistente: quase toda cultura marítima com acesso a cefalópodes grandes produziu uma versão monstruosa deles. Não é difícil entender por quê — um animal com braços que se movem de forma independente, capaz de mudar de cor e de sumir numa nuvem escura, encaixa-se perfeitamente na categoria de coisa que não deveria existir.
O kraken hoje
O nome sobreviveu em filmes, jogos, times esportivos, rótulos de bebida e memes. Curiosamente, a versão contemporânea é mais monstruosa que a original: o hafgufa medieval era uma criatura enorme e passiva, quase geológica. O kraken de hoje é um predador agressivo, herança direta de Verne e do cinema.
A parte factual do mito está descrita no artigo sobre a lula-gigante. Existe um animal de até treze metros que vive no escuro e é caçado por cachalotes. Ele não afunda navios, nunca afundou, e passa a vida a centenas de metros abaixo de qualquer quilha.
Vale registrar a inversão que o século XXI produziu. Durante quase toda a história, o cefalópode gigante foi símbolo de ameaça. Hoje ele é usado sobretudo como símbolo de mistério e de tudo aquilo que ainda não conhecemos no oceano — o que, considerando quanto do mar profundo permanece inexplorado, é um papel mais apropriado.
Perguntas frequentes
O kraken existiu de verdade?
O monstro do folclore, não. Mas ele foi provavelmente inspirado em encontros reais com lulas-gigantes encalhadas ou moribundas na superfície, animais que de fato chegam a treze metros de comprimento total.
Lulas-gigantes já afundaram navios?
Não há nenhum caso confirmado. O relato mais próximo é o do navio francês Alecton, em 1861, cuja tripulação tentou içar uma lula enorme e recuperou apenas um fragmento.