Alimentação

O que os polvos comem e como caçam

Caranguejos, moluscos, peixes e até outros polvos. As técnicas mudam conforme a presa, a hora do dia e o fundo.

Polvo envolvendo um caranguejo com a membrana entre os braços sobre o fundo escuro
A técnica do paraquedas: espalhar a membrana sobre uma área e encurralar o que estiver embaixo.

Todo cefalópode é carnívoro. Não existe polvo herbívoro, e a única exceção conhecida à predação ativa é a lula-vampira, que filtra partículas em suspensão. O que muda entre as espécies é o alvo, o horário e o método.

O cardápio

Para a maioria dos polvos costeiros, a lista fica assim, em ordem aproximada de importância:

  • Crustáceos — caranguejos em primeiro lugar, seguidos de camarões, ermitões e lagostas pequenas. É a base da dieta;
  • Moluscos — bivalves como mexilhões e vieiras, gastrópodes com concha e, ocasionalmente, outros cefalópodes;
  • Peixes — menos frequentes, porque exigem uma perseguição que costuma não compensar;
  • Outros invertebrados — poliquetas, equinodermos e o que mais estiver disponível e for capturável.

Canibalismo ocorre e não é raro, sobretudo quando há grande diferença de tamanho entre os indivíduos.

A pilha de conchas na porta

Polvos costumam levar a presa de volta para a toca antes de comer, e descartam os restos na entrada. Esse acúmulo, chamado midden, é a maneira mais confiável de localizar um abrigo ocupado — e é também uma fonte de dados: analisando os restos, pesquisadores reconstroem a dieta de um indivíduo ao longo de semanas sem precisar observá-lo caçando.

As técnicas de caça

Paraquedas

A mais característica. O animal se lança sobre uma área do fundo com os braços abertos e a membrana interbraquial esticada, formando uma cúpula. O que estiver embaixo fica encurralado, e as pontas dos braços fazem a busca por tato dentro do espaço fechado. Funciona sem que o polvo precise ter visto a presa.

Sondagem de frestas

Enfia um ou dois braços em buracos e fendas, avaliando o conteúdo pelos receptores das ventosas. Se encontra algo comestível, puxa. É o método que mais se beneficia da capacidade de "provar pelo toque" descrita no texto sobre ventosas.

Emboscada

Camuflado e imóvel, espera a presa passar ao alcance. Comum em espécies que ocupam fundos de areia.

Perseguição

Menos frequente, reservada a presas lentas ou já encurraladas. A propulsão a jato é rápida, mas insustentável.

Jato de água

Direcionar o sifão contra o sedimento para desenterrar presas escondidas, ou contra frestas para forçar a saída de quem está dentro.

Como abrir uma concha

Bivalves e gastrópodes apresentam um problema mecânico interessante, e os polvos têm três soluções.

Força bruta. Puxar as valvas em direções opostas até vencer o músculo adutor. Funciona com bivalves pequenos e é mais comum em espécies grandes.

Perfuração. Usar a rádula acessória para furar a concha e injetar saliva paralisante pelo orifício. O músculo relaxa e a concha se abre sozinha. É lento — pode levar horas — mas gasta pouca energia.

Escolha do ponto certo. Estudos mostraram que o local da perfuração não é aleatório: o furo tende a ficar exatamente sobre o músculo adutor, o que é o ponto mais eficiente. Em espécies com concha muito espessa, o polvo às vezes tenta a força primeiro e recorre à perfuração apenas se não der certo.

Tipo de alimentação
Carnívora em todas as espécies, com uma exceção conhecida
Presa principal
Crustáceos, sobretudo caranguejos
Período de atividade
Predominantemente crepuscular e noturno
Ferramenta de abertura
Bico de quitina e rádula acessória perfuradora
Tempo de perfuração
De dezenas de minutos a algumas horas
Vestígio típico
Furo circular limpo, próximo ao músculo adutor

A caça em parceria com peixes

Em recifes tropicais, polvos da espécie Octopus cyanea caçam junto com peixes de espécies diferentes — garoupas, bodiões, peixes-cabra. Não é coincidência de ocupação do mesmo espaço: a interação é ativa e envolve troca de informação.

A divisão de trabalho é complementar. Os peixes localizam presas em campo aberto, onde enxergam melhor. O polvo acessa o interior das frestas, onde os peixes não entram. Quando um peixe indica um ponto, o polvo investiga; quando o polvo espanta algo de dentro de um buraco, os peixes aproveitam.

Um estudo publicado em 2024 documentou que a interação inclui regulação social: o polvo desfere golpes rápidos com um braço contra peixes que se aproximam demais sem contribuir. É o registro mais claro de que a associação é gerenciada, e não apenas tolerada.

Quanto um polvo come

Bastante. Taxas de crescimento em cativeiro indicam consumo diário na faixa de alguns pontos percentuais do próprio peso corporal, com eficiência de conversão alta — polvos transformam alimento em massa corporal de forma notavelmente eficiente para um animal marinho.

É o que sustenta o crescimento acelerado da espécie, que sai de uma paralarva de poucos milímetros para vários quilos em cerca de um ano. Esse ritmo também explica por que a interrupção alimentar durante o cuidado com os ovos, descrita no artigo sobre senescência, é tão devastadora para a fêmea.

Perguntas frequentes

Polvos comem outros polvos?

Sim. Canibalismo é documentado em várias espécies, sobretudo quando há grande diferença de tamanho entre os indivíduos ou competição por abrigo.

Como o polvo abre um mexilhão?

De duas formas: puxando as valvas com força ou perfurando a concha com a rádula acessória e injetando saliva que relaxa o músculo adutor, fazendo a concha abrir sozinha.

Polvos caçam de dia ou de noite?

A maioria é crepuscular e noturna, saindo da toca no fim da tarde e retornando ao amanhecer. Algumas espécies de recife, como Octopus cyanea, caçam durante o dia.


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