Espécies de polvos

Polvo-comum: retrato do cefalópode mais estudado do mundo

Octopus vulgaris ocupa costões rochosos de quase todos os oceanos temperados e é a referência de quase tudo que sabemos sobre polvos.

Polvo-comum apoiado em rocha submersa, iluminado por um feixe de luz âmbar
O polvo-comum passa a maior parte do dia recolhido na toca e sai para caçar no fim da tarde e à noite.

Se existe um animal que serve de retrato falado do grupo inteiro, é o polvo-comum. Ele aparece nos livros didáticos, nos experimentos de laboratório, nos aquários públicos e na maioria das fotografias que ilustram matérias sobre cefalópodes. Boa parte do que qualquer pessoa acha que sabe sobre polvos vem, na verdade, do estudo de Octopus vulgaris.

Quem é o polvo-comum

Trata-se de um polvo de porte médio, com manto que raramente passa de 25 centímetros e envergadura de braços em torno de um metro. O peso típico fica entre dois e cinco quilos, com exemplares excepcionais chegando a dez. É um bicho de fundo: prefere costões rochosos, recifes, campos de pedra solta e áreas com fresta onde consiga se enfiar.

A coloração padrão é um marrom-avermelhado mosqueado, mas isso quer dizer pouco. Em questão de segundos o animal pode ficar branco-fantasma, cinza-pedra ou quase preto, dependendo do que estiver acontecendo ao redor. A cor de repouso de um polvo diz mais sobre o estado dele do que sobre a espécie.

Um detalhe que muda a conversa

Durante décadas, qualquer polvo costeiro de porte médio no mundo inteiro foi chamado de Octopus vulgaris. Hoje se entende que aquilo era um complexo de espécies parecidas. O polvo mais comum no litoral brasileiro, por exemplo, foi descrito em 2008 como Octopus insularis — parecido no comportamento, distinto na genética e em detalhes morfológicos.

Onde vive e como ocupa o espaço

A distribuição clássica atribuída à espécie cobre o Atlântico Nordeste e o Mediterrâneo, das águas britânicas ao norte da África. Registros em outras partes do mundo hoje são atribuídos a espécies próximas. Em qualquer um desses lugares, o padrão de ocupação é o mesmo: o animal escolhe uma toca e a defende.

A toca pode ser uma fenda natural, um buraco sob uma pedra, uma ânfora afundada, uma lata de refrigerante ou um cano de PVC. O critério é simples: precisa ter uma entrada estreita e um espaço interno que caiba o corpo. O polvo costuma reforçar a boca do abrigo empilhando pedras e conchas.

Esse acúmulo de restos na entrada tem nome técnico — midden, algo como monturo — e é o melhor sinal de que há um polvo ali. Mergulhadores e pesquisadores localizam tocas justamente pelo lixo à porta: carapaças de caranguejo quebradas, valvas de bivalves e conchas vazias.

O que come

Caranguejos são a base do cardápio, seguidos por bivalves, gastrópodes e crustáceos menores. Peixes entram na conta com menos frequência, porque exigem uma perseguição que raramente compensa. O polvo caça sobretudo no fim da tarde e à noite, em saídas que podem durar de alguns minutos a mais de uma hora.

A técnica mais usada não depende de velocidade. O animal se espalha sobre uma área de fundo com a membrana que une os braços, formando uma espécie de guarda-chuva invertido, e vasculha as frestas por baixo com as pontas dos braços. O que estiver escondido ali é encurralado sem que o polvo precise enxergar a presa.

Nome científico
Octopus vulgaris Cuvier, 1797
Tamanho do manto
Geralmente 12 a 25 cm
Envergadura
Em torno de 1 m, ocasionalmente mais
Peso comum
2 a 5 kg; excepcionalmente até 10 kg
Longevidade
12 a 24 meses
Profundidade
Da zona entremarés a cerca de 200 m
Ventosas por braço
Aproximadamente 200 a 240

Comportamento e rotina

O polvo-comum é solitário e territorial. Encontros entre indivíduos costumam terminar em fuga de um dos lados, e o canibalismo não é raro quando a diferença de tamanho é grande. Não há hierarquia, não há grupo, não há cuidado com outro adulto.

A rotina diária gira em torno de três atividades: permanecer na toca, sair para caçar e manter o abrigo. A limpeza do abrigo é feita com jatos de água pelo sifão, que expulsam restos e sedimento. Esse mesmo jato serve para afastar peixes intrometidos.

É também nessa espécie que se documentou boa parte do repertório cognitivo atribuído aos polvos: aprender a abrir potes, reconhecer padrões visuais, resolver labirintos simples e responder de forma diferente a tratadores distintos. O texto sobre inteligência trata desses experimentos em detalhe.

Reprodução e fim de vida

A reprodução acontece uma única vez. O macho transfere pacotes de esperma com um braço modificado, o hectocótilo, e morre algumas semanas ou meses depois. A fêmea põe entre cem mil e quinhentos mil ovos, presos em cachos no teto da toca, e passa o restante da vida cuidando deles.

Durante esse período — que varia de um a quatro meses conforme a temperatura da água — ela praticamente não se alimenta. Oxigena os ovos com jatos de água, limpa-os com as pontas dos braços e afasta qualquer coisa que se aproxime. Quando os filhotes eclodem, ela já está em colapso fisiológico e morre em poucos dias.

Os recém-nascidos não são miniaturas do adulto. São paralarvas planctônicas, do tamanho de um grão de arroz, que passam semanas à deriva na coluna d'água antes de descer para o fundo. A mortalidade nessa fase é altíssima: de centenas de milhares de ovos, poucos indivíduos chegam à idade adulta.

Quem come polvo

Praticamente todo predador de médio porte do costão. Moreias caçam dentro das frestas, garoupas e badejos pegam animais em trânsito, tubarões e raias revolvem o fundo, e golfinhos aprenderam a sacudir polvos até desmembrá-los antes de engolir. Aves marinhas capturam juvenis em áreas rasas.

A resposta a essa pressão é a combinação de camuflagem, toca e fuga. Quando as três falham, entram a nuvem de tinta e o descarte de braço, assunto do artigo sobre defesas.

Relação com pessoas

O polvo-comum é um dos cefalópodes mais pescados do mundo, com armadilhas de potes, covos e linha. É também o mais usado em pesquisa e em aquários públicos, o que gerou uma discussão relevante sobre bem-estar animal: desde 2013, a União Europeia incluiu cefalópodes na diretiva que regula o uso de animais em experimentação científica, um reconhecimento formal de que são capazes de sentir dor.

Perguntas frequentes

O polvo-comum ocorre no Brasil?

O polvo mais frequente no litoral brasileiro é Octopus insularis, descrito em 2008 e antes confundido com Octopus vulgaris. Eles são muito parecidos em hábito e aparência, mas se trata de espécies distintas.

Quanto tempo vive um polvo-comum?

Entre doze e vinte e quatro meses. A vida curta é característica do grupo e está ligada ao fato de a espécie se reproduzir uma única vez, entrando em declínio fisiológico logo depois.

Polvo-comum é perigoso para mergulhadores?

Não. A reação típica diante de uma pessoa é recuar para a toca ou fugir. Mordidas são raríssimas, ocorrem em situações de manipulação e causam ferimento local, sem gravidade.


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