A camuflagem resolve a maior parte dos problemas de um cefalópode, mas ela tem um pressuposto: que o predador ainda não tenha percebido nada. Uma vez detectado, o animal precisa de outro conjunto de respostas — e ele tem vários, organizados numa escalada bem definida.
A sequência de defesa
Observações de campo e de laboratório mostram uma ordem razoavelmente consistente:
- Não ser visto — camuflagem e imobilidade;
- Não parecer comida — mimetismo de objeto ou de animal indesejável;
- Parecer maior e pior — exibições de sobressalto e ameaça;
- Sumir — tinta e propulsão a jato;
- Pagar um pedaço — descarte de braço.
Cada degrau é mais caro que o anterior. O animal só recorre ao seguinte quando o atual falha.
A tinta
O saco de tinta é uma bolsa ligada ao reto, próxima ao sifão. Nela se acumula melanina em alta concentração, produzida por uma glândula específica e misturada a muco.
Quando o animal libera a tinta, ela sai junto com o jato de água do sifão. O muco é o elemento decisivo: ele mantém a nuvem coesa por alguns segundos em vez de deixá-la se dissolver de imediato. O resultado, chamado pseudomorfo, é uma massa escura com volume comparável ao do próprio animal.
O predador ataca a nuvem. O polvo, que ao soltar a tinta empalideceu e disparou na direção oposta, já não está ali.
A tinta contém tirosinase e outros compostos que irritam olhos e interferem em receptores químicos. Para predadores que caçam por olfato, como moreias, o efeito é mais grave que a perda visual: a nuvem embaralha o rastro químico da presa. Em ambiente fechado, um cefalópode pode se envenenar com a própria tinta se não conseguir se afastar.
Variações da mesma ideia
- Nuvem difusa — grande e dispersa, funciona como cortina em fuga direta;
- Pseudomorfo — compacto e com forma, funciona como isca;
- Sequência múltipla — vários pseudomorfos seguidos, criando uma linha de alvos falsos;
- Tinta luminosa — em espécies de mar profundo, onde uma nuvem preta não teria efeito nenhum, a secreção é bioluminescente e cega o predador com luz em vez de escuridão.
O nautilus, por ser o representante mais antigo do grupo, não tem saco de tinta: sua defesa é a concha. A lula-vampira perdeu o saco de tinta secundariamente e o substituiu por muco bioluminescente.
A propulsão a jato
Contrair o manto com força e expelir toda a água pelo sifão gera uma arrancada rápida. Direcionando o sifão, o animal escolhe para onde vai sem reorientar o corpo.
É eficaz e caro. Como a pressão dentro do manto interrompe o batimento do coração sistêmico, cada arrancada gera um débito de oxigênio, conforme explica o artigo sobre circulação. Fugir por jato é recurso de emergência, não modo de deslocamento.
- Composição principal da tinta
- Melanina concentrada com muco
- Função do muco
- Manter a nuvem coesa, formando um alvo falso
- Efeito químico
- Irritação e interferência em receptores olfativos
- Grupos sem saco de tinta
- Nautilus e lula-vampira
- Regeneração de braço
- Completa, em semanas a meses
- Braço destacado
- Continua se movendo e agarrando por um tempo
Autotomia: descartar um braço
Quando o predador já agarrou o animal, resta a última carta. Vários polvos conseguem destacar um braço num plano de ruptura pré-formado, com fechamento vascular que limita a hemorragia.
O braço destacado não fica inerte. Ele continua se contorcendo e agarrando por um período considerável, graças aos gânglios locais descritos no texto sobre o cérebro distribuído. Isso prende a atenção do predador enquanto o restante do animal se afasta.
O custo é real: menos capacidade de manipulação e de captura até a regeneração se completar, o que leva de semanas a meses. Mas um braço a menos é preferível a nenhum polvo.
Exibições de ameaça e blefe
Antes de chegar a esse ponto, há um repertório de intimidação. O animal se infla, escurece, estende a membrana entre os braços para parecer muito maior e, em várias espécies, exibe manchas escuras circundadas de claro que simulam olhos grandes.
Funciona pela mesma razão que funciona em mariposas e peixes: o predador precisa decidir em uma fração de segundo se aquilo é presa ou problema, e a dúvida costuma bastar. A exibição de "olhos falsos" é particularmente comum em sépias.
Defesas físicas e químicas
- Saliva tóxica — todos os polvos têm veneno nas glândulas salivares, embora seja voltado à caça e, salvo no polvo-de-anéis-azuis, irrelevante para pessoas;
- Mordida — o bico é capaz de causar ferimento e é usado como último recurso;
- Ocupar a toca — recolher-se e vedar a entrada com pedras é uma defesa passiva extremamente eficaz;
- Jato de água — o mesmo sifão da fuga serve para afastar intrusos menores com um empurrão de água.
O que essa lista revela
Um animal com esse arsenal defensivo é, necessariamente, um animal muito predado. Cefalópodes de corpo mole estão no cardápio de praticamente todo predador marinho de médio e grande porte: peixes, tubarões, aves, focas, golfinhos e baleias.
Essa pressão constante é a hipótese mais aceita para explicar tanto a sofisticação da pele quanto a flexibilidade comportamental do grupo. Sem armadura e sem velocidade sustentada, restou investir em não ser encontrado — e, quando encontrado, em ter sempre mais uma saída.
Perguntas frequentes
A tinta de polvo é venenosa?
Para pessoas, não. Ela é usada inclusive na culinária. Para o próprio animal em ambiente fechado, a concentração pode ser prejudicial, e para predadores ela funciona como irritante e como bloqueio dos receptores químicos.
O polvo sente dor ao perder um braço?
A evidência disponível indica que cefalópodes têm capacidade de sentir dor, razão pela qual foram incluídos na legislação europeia de proteção animal em pesquisa. A autotomia é um recurso extremo, não um evento trivial.
Todo cefalópode tem tinta?
Não. O nautilus nunca teve saco de tinta e a lula-vampira o perdeu ao longo da evolução, substituindo-o por muco bioluminescente adequado ao ambiente escuro em que vive.